Eu senti o beijo quente nas minhas bochechas, e o peso do
seu corpo sobre o meu me despertou do sono, deveria ter ficado furiosa, sempre
odiei quando me acordavam... Mas depois de apertar os olhos e descobrir que
quem me despertava era você, só dei um sorriso de lado tentando adormecer
enquanto te abraçava com os olhos fechados sentindo apenas teu cheirinho
gostoso se misturando ao meu.
Por um minuto a realidade veio a minha cabeça e eu lembrei
que havia pessoas na casa, minha mãe, meu pai, a empregada, minha irmã que provavelmente dormia na cama ao lado,
olhei assustada, mas não vi ninguém além de nós dois no quarto, a movimentação
pela pequena abertura da porta parecia ser grande, mas tive a impressão que
ninguém lá ligava para o quarto onde eu me encontrava. Senti um beijo em meu
pescoço e esqueci novamente da realidade lá fora. Tentei tira-lo de cima de mim
e ajeita-lo ao meu lado, pois se alguém chegasse talvez eu conseguisse
esconde-lo com meu corpo magricelo. Talvez.
Ele enlaçou minha cintura com os braços e respirava forte em
meu pescoço enquanto envolvida por ele e seu cheiro eu adormecia em seus
braços. Soltei um suspiro e um sorriso tomou conta da minha face, assim era
amar alguém? Dormir em conchinha trazia aquela sensação tão boa? Aquilo era se
sentir amada? E como ele conseguiu entrar assim, no meu quarto, na minha casa,
sem que ninguém notasse sua presença?
Pelo que me lembrava tinha ido dormir ontem e minha companhia era meu
macaco de pelúcia e minha irmã que dividia o quarto comigo. Perdi-me nos pensamentos, senti o cheiro, o
calor, o corpo, o beijo e fui sendo derrubada pelo sono outra vez...
De repente senti minha cabeça latejar, abri lentamente os
olhos e olhei pra porta em desespero, será que alguém o teria visto ali? Virei
para olha-lo e assustei-me, onde ele estava? Nem seu cheiro eu sentia mais
naquele cômodo. Eu estava sozinha, meu pai já tinha ido viajar, minha mãe
trabalhar, e minha irmã estudar, e ele... Bem ele provavelmente sumiu, por que
essa era minha realidade não? Momentos como esse que eu cheguei a achar que era
verdade, só existiriam em meus sonhos, nos meus mais belos sonhos.
Tinha sido a primeira vez que aquilo tinha me acontecido, um
sonho tão intenso que eu acreditasse lá no fundo que fosse real... Fechei os
olhos e agradeci a Deus, pelo sonho tão feliz que ele tinha me proporcionado
naquela manhã. Sorri relembrando o cheiro, o toque, o carinho, o beijo... Sorri
para o nada em meu quarto e me levantei afinal a realidade me esperava lá fora.
Uma realidade não tão doce como meu sonho, mas quem sabe eu não poderia
transforma-la com o tempo, não? Por que,
no final, nós é que escolhemos como viver nesse mudo sem fim.




